Quando o remédio vira risco: os desafios da polifarmácia na pessoa idosa

Por Isabela Diniz

Com o avanço da idade, é comum que surjam doenças crônicas como hipertensão, diabetes, artrite, osteoporose e problemas cardiovasculares. Para controlar essas condições, muitos idosos passam a utilizar diversos medicamentos diariamente. Embora cada um deles tenha uma finalidade importante, o uso simultâneo de muitos remédios, conhecido como polifarmácia, pode representar um risco significativo à saúde quando não é acompanhado de forma adequada.

De maneira geral, considera-se polifarmácia o uso de cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo. Esse cenário é cada vez mais frequente em razão do envelhecimento da população brasileira e do aumento da expectativa de vida.

No entanto, o problema não está apenas na quantidade de medicamentos, mas principalmente na possibilidade de interações entre eles, na ocorrência de efeitos adversos e no uso de remédios que talvez já não sejam mais necessários.

À primeira vista, tomar vários medicamentos pode parecer sinônimo de um tratamento mais completo. Porém, quanto maior o número de medicamentos utilizados, maior também é o risco de complicações. Interações medicamentosas podem reduzir o efeito de um tratamento, potencializar reações indesejadas ou provocar novos problemas de saúde, muitas vezes confundidos com o próprio envelhecimento.

Sonolência excessiva, tonturas, quedas, confusão mental, alterações na memória, perda de apetite, prisão de ventre, sangramentos e problemas renais são algumas das consequências que podem estar relacionadas ao uso inadequado ou excessivo de medicamentos. Em muitos casos, esses sintomas levam à prescrição de novos remédios para tratar os efeitos colaterais dos anteriores, criando um ciclo conhecido como “cascata de prescrição”.

Outro fator que merece atenção são as mudanças naturais do organismo com o envelhecimento. O funcionamento dos rins e do fígado tende a diminuir ao longo dos anos, alterando a forma como os medicamentos são absorvidos, metabolizados e eliminados. Isso faz com que uma dose considerada segura para um adulto mais jovem possa causar efeitos mais intensos em uma pessoa idosa.

A automedicação também contribui para o aumento dos riscos. Analgésicos, anti-inflamatórios, relaxantes musculares, medicamentos para dormir e até suplementos alimentares costumam ser utilizados sem orientação profissional. Embora muitos sejam vendidos sem receita médica, eles podem interagir com tratamentos já existentes e provocar complicações importantes.

Além disso, é comum que idosos sejam acompanhados por diferentes especialistas, como cardiologistas, endocrinologistas, ortopedistas e neurologistas. Quando não há integração entre os profissionais de saúde, podem ocorrer prescrições duplicadas ou medicamentos incompatíveis entre si. Por isso, manter uma lista atualizada de todos os medicamentos utilizados é uma medida simples que facilita o acompanhamento e reduz erros.

Outro desafio é a dificuldade em seguir corretamente os horários e as doses prescritas. Esquemas terapêuticos muito complexos aumentam as chances de esquecimentos, trocas de medicamentos ou uso em horários inadequados. O apoio da família e dos cuidadores, aliado ao uso de organizadores de comprimidos e lembretes, pode contribuir para uma administração mais segura.

A revisão periódica da prescrição é uma estratégia essencial para reduzir os riscos da polifarmácia. Durante essa avaliação, podem ser identificados medicamentos que já não apresentam benefícios, doses que precisam ser ajustadas ou tratamentos que podem ser simplificados. Essa prática favorece um cuidado mais individualizado e seguro.

É importante destacar que a polifarmácia nem sempre é inadequada. Muitas pessoas realmente necessitam de vários medicamentos para controlar doenças diferentes e manter uma boa qualidade de vida. O objetivo não é interromper tratamentos importantes, mas garantir que cada medicamento tenha uma indicação clara, benefícios comprovados e riscos cuidadosamente avaliados.

Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, discutir o uso racional de medicamentos torna-se cada vez mais necessário. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de idosos cresce continuamente, reforçando a importância de políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável e à segurança do paciente.

Cuidar da saúde vai além de tomar medicamentos. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, vacinação, acompanhamento médico periódico e hábitos saudáveis também desempenham papel fundamental na prevenção de doenças e na promoção da qualidade de vida.

Quando utilizados de forma correta, os medicamentos são grandes aliados da saúde. Mas, quando usados sem o acompanhamento adequado, podem deixar de proteger e passar a representar um risco. Por isso, a informação, o diálogo com os profissionais de saúde e a revisão periódica dos tratamentos são atitudes essenciais para que o remédio continue cumprindo seu principal objetivo: promover saúde e bem-estar.

Fonte: Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia; Ministério da Saúde; Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Compartilhe