Por Isabela Diniz
A obesidade, condição caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal, tornou-se ao longo das últimas décadas uma das mais urgentes preocupações de saúde pública no Brasil. Embora possa parecer um problema individual, seus determinantes são amplos, englobando fatores biológicos, comportamentais, econômicos e sociais, e suas consequências extrapolam o indivíduo, estendendo-se ao sistema de saúde e à sociedade como um todo.
Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), por meio do painel dedicado ao tema, é possível acessar séries históricas de prevalência de obesidade, excesso de peso e fatores de risco por ano, região, estado e município. A entidade também reforça que, em 2023, a prevalência de obesidade entre adultos entrevistados pela pesquisa Vigitel foi de aproximadamente 24,3 %.
Outros levantamentos reforçam a gravidade do cenário: uma publicação recente aponta que cerca de 68 % da população brasileira estaria com excesso de peso, dos quais 31 % viveriam com obesidade. Projeções elaboradas indicam que, se as tendências atuais forem mantidas, até 2044 quase metade dos adultos brasileiros (48 %) poderá estar em situação de obesidade, com outros 27 % vivendo com sobrepeso.
Esse crescimento não é homogéneo entre faixas etárias, gêneros ou regiões: por exemplo, o relatório da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) aponta que para algumas capitais a prevalência de obesidade já ultrapassa 20 % ou mais.
Por que os números sobem?
Há múltiplos fatores que explicam essa escalada da obesidade no Brasil. Em primeiro lugar, mudanças no padrão alimentar, como maior disponibilização e consumo de alimentos ultraprocessados, produtos com alta densidade calórica, gorduras saturadas e açúcares simples têm se tornado comuns. Aliado a isso, há a redução da atividade física no cotidiano das pessoas, seja por urbanização acelerada, uso crescente de transporte motorizado ou ignorância dos benefícios exercidos pela movimentação regular.
Além disso, fatores sociais e econômicos desempenham papel importante: menor escolaridade está associada a maiores taxas de obesidade, possivelmente porque o acesso à informação nutricional, a alimentos saudáveis e a espaços de prática de exercícios é desigual. O MS destaca que o monitoramento por escolaridade é essencial para identificar os pontos de atenção desse agravo. Ainda, aspectos metabólicos, genéticos e psicossociais contribuem, o que evidencia que a obesidade é uma condição multifatorial e não apenas “falta de força de vontade”.
Impactos para a saúde e o sistema de atenção
A obesidade é reconhecida como fator de risco para diversas doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como diabetes do tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemias, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e também problemas ortopédicos ou respiratórios. Em nível populacional, esse cenário gera sobrecarga para o sistema de saúde através de maiores custos, maior demanda de serviços e hospitalizações, além de reduzir a qualidade e expectativa de vida da população.
Para ilustrar: um relatório recente estima que mais de 60 mil mortes prematuras no Brasil sejam atribuíveis ao sobrepeso e à obesidade. Há ainda a projeção de que, nos próximos 20 anos, 10,9 milhões de novos casos de DCNTs associadas ao sobrepeso/obesidade possam ocorrer, com cerca de 1,2 milhão de mortes atribuíveis.
Além dos impactos físicos, há também repercussões sócio-psicológicas: baixa autoestima, estigma social, isolamento, além de redução da produtividade laboral e do desempenho escolar nos jovens. Essas consequências reforçam que a obesidade é uma questão de saúde pública, de equidade e de bem-estar social.
Desafios no enfrentamento e políticas públicas
Apesar de o desafio ser evidente, o enfrentamento da obesidade no Brasil enfrenta obstáculos. Conforme relatado, o tratamento multidisciplinar – nutricional, psicológico, fisioterápico e médico – ainda encontra barreiras de acesso no Sistema Único de Saúde (SUS). Adicionalmente, a implementação de medidas voltadas para prevenção (como
regulação da publicidade de alimentos ultraprocessados, promoção da atividade física, políticas de ambiente alimentar saudável) ainda está aquém do necessário.
O Ministério da Saúde vem disponibilizando ferramentas para subsidiar políticas: por exemplo, lançou em dezembro de 2024 o “Painel Obesidade” que reúne dados detalhados por faixa etária, sexo, escolaridade, município e capitais. Esse tipo de transparência e detalhamento é vital para diagnóstico situacional e planejamento regionalizado das ações.
Contudo, o simples monitoramento não basta: é necessário mobilizar ações intersetoriais envolvendo educação, transporte, planejamento urbano, indústria alimentícia e saúde para criar ambientes que favoreçam escolhas saudáveis. O relatório global mais recente sublinha que nenhum país implementou integralmente todas as políticas-chave recomendadas para prevenção da obesidade.
Em síntese, o enfrentamento da obesidade no Brasil depende de um esforço conjunto e contínuo. Trata-se de um desafio que atravessa gerações e territórios, exigindo compromisso político, conhecimento científico e ação comunitária. Se o país conseguir transformar informação em prática e políticas em resultados, será possível reverter a tendência crescente e promover uma sociedade mais saudável, equilibrada e justa.
Fonte: Ministério da Saúde; Sociedade Brasileira de Clínica Médica; Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica.
