Por Isabela Diniz
A menopausa, fase natural da vida da mulher caracterizada pela cessação definitiva dos ciclos menstruais, leva a uma queda acentuada na produção de hormônios ovarianos, sobretudo estrogênio e progesterona. Essa mudança biológica desencadeia uma série de sintomas e consequências para a saúde, muitos dos quais afetam de modo significativo a qualidade de vida. A terapia de reposição hormonal (TRH) emerge, nesse contexto, como intervenção com potencial de atenuar desconfortos, prevenir complicações e promover bem-estar. No Brasil, diretrizes e estudos recentes têm reformulado visões antigas, apontando novos benefícios e critérios de segurança para seu uso.
Sintomas e impacto na qualidade de vida
Logo após o início do climatério e da menopausa, muitas mulheres apresentam sintomas vasomotores (fogachos, suores noturnos), distúrbios do sono, alterações de humor, secura vaginal e sexual, bem como perda da libido. Além disso, há impacto psicossocial: insônia, fadiga, menor disposição, sensação de envelhecimento precoce. Esses sintomas, embora considerados “naturais”, geram sofrimento e podem comprometer atividades cotidianas, relacionamentos e saúde mental.
A TRH tem demonstrado eficácia na redução desses sintomas, restaurando conforto térmico e melhorando o sono, o humor e a função sexual. Também atua sobre a síndrome geniturinária da menopausa, além de problemas geniturinários, promovendo melhora significativa na lubrificação, alívio da dor nas relações sexuais e diminuição de infecções do trato urinário.
Benefícios para ossos e prevenção de osteoporose
Uma das consequências mais silenciosas e graves da queda hormonal é a perda acelerada de massa óssea. Estudos mostram que nos cinco a dez anos após a menopausa há aceleração da reabsorção óssea, o que eleva o risco de osteopenia, osteoporose e fraturas.
No Brasil, estima-se que até um terço das mulheres pós-menopausa já apresenta osteoporose, muitas ainda sem diagnóstico.
A TRH, quando indicada e utilizada adequadamente, pode retardar ou evitar essa perda óssea, reduzir o risco de fraturas e preservar a integridade do esqueleto, sobretudo se iniciada cedo, nas proximidades do início da menopausa.
Saúde cardiovascular
Historicamente, a reposição hormonal foi vista com cautela devido a associações relatadas com riscos cardiovasculares (infarto, AVC) e trombose, sobretudo em mulheres mais velhas ou com fatores de risco estabelecidos. No entanto, documentos recentes apontam uma mudança nesta perspectiva.
Em 2024, foi publicada a “Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa”, elaborada pela Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e outras entidades. O documento estabelece que, para mulheres saudáveis ou com fatores de risco bem controlados, a terapia hormonal é segura quando iniciada dentro da chamada janela de oportunidade: nos primeiros 10 anos após a menopausa ou antes dos 60 anos de idade.
Essa diretriz esclarece também que a TRH não se destina a prevenir primariamente doenças cardiovasculares, nem a evitar eventos já existentes, mas que ela pode contribuir indiretamente para a saúde vascular: aliviando sintomas como queda do estrogênio, obesidade visceral, alteração lipídica, insulino‐resistência e melhorandoqualidade de vida, o que facilita adesão a hábitos saudáveis (atividade física, alimentação balanceada).
Além disso, as novas formulações têm vias de administração que reduzem riscos. Por exemplo, terapia transdérmica ou vaginal é preferida em muitos casos, uma vez que evita o efeito de “passagem hepática” presente na via oral, diminuindo a sobrecarga metabólica e o risco de trombose.
Cuidados, contraindicações e individualização
A TRH não é indicada para todas as mulheres. Algumas condições contraindicariam seu uso ou demandariam precaução especial: história pessoal ou familiar de certos tipos de câncer de mama, doença cardiovascular ativa ou mal controlada, tromboembolismo venoso, entre outras. O risco absoluto de eventos adversos tende a aumentar quando a terapia é iniciada tardiamente (mais de 10 anos após a menopausa ou em idade avançada).
Portanto, é essencial que a decisão pelo uso da TRH seja feita individualmente, após avaliação clínica, estratificação de risco, escolha cuidadosa da dose, forma de administração (oral, transdérmica, vaginal), e acompanhamento periódico. Também é importante que a paciente esteja bem-informada sobre os benefícios esperados e os possíveis riscos. Essa abordagem personalizada maximiza os ganhos e minimiza possíveis prejuízos.
Conclusão
A menopausa representa uma etapa fisiológica, porém com desafios concretos para a saúde da mulher. A reposição hormonal, quando bem indicada e dentro das recomendações atuais, pode atenuar sintomas incômodos, proteger ossos, melhorar saúde sexual e qualidade de vida. No Brasil, as diretrizes recentes apontam para uma abordagem mais segura, reconhecendo que muitos dos riscos antes atribuídos à TRH podem ser controlados pelo momento de início, pela via de administração e pelo perfil individual de cada mulher.
Em última análise, a TRH surge como uma ferramenta valiosa no cuidado integral da mulher na menopausa — não como obrigação, mas como opção fundamentada em evidência científica, para quem busca aliviar sintomas ou prevenir complicações, sob supervisão adequada.
