O cuidado da saúde íntima entre os idosos: um tema invisibilizado, mas essencial

Por Isabela Diniz

Com o aumento da expectativa de vida no Brasil, que já ultrapassa os 75 anos, cresce também a responsabilidade de garantir uma velhice com qualidade, dignidade e bem estar. Nesse contexto, a saúde íntima, muitas vezes invisibilizada, merece atenção especial. Ainda marcada por tabus e silêncios, essa dimensão da saúde é essencial para o conforto físico, a autoestima e a qualidade de vida das pessoas idosas.

Com o envelhecimento, o corpo passa por diversas transformações naturais, como alterações hormonais, redução da lubrificação vaginal, enfraquecimento da musculatura pélvica, diminuição da elasticidade da pele, além de maior vulnerabilidade a infecções urinárias e genitais. Essas mudanças podem gerar desconfortos, dores, incontinência, dificuldades nas relações sexuais e um impacto significativo na saúde emocional e na autonomia.

Apesar de serem queixas comuns, muitas dessas condições não são relatadas pelos idosos, seja por vergonha, falta de informação ou porque acreditam que são “normais da idade”.

Esse silêncio também está presente nas consultas médicas, onde raramente a saúde íntima é abordada com naturalidade. Em muitos casos, profissionais de saúde evitam tocar no assunto por falta de preparo ou receio de causar constrangimento.

Além das alterações físicas, há outro ponto preocupante: o aumento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) entre a população idosa. Dados do Ministério da Saúde apontam que os casos de HIV, sífilis e outras ISTs têm crescido significativamente entre pessoas com mais de 60 anos. Isso se deve, em parte, à baixa percepção de risco, à ausência de campanhas de prevenção voltadas para essa faixa etária e ao uso reduzido de preservativos, que muitas vezes são associados apenas à contracepção.

A sexualidade na terceira idade ainda é um tema cercado de preconceitos. Existe uma ideia equivocada de que, ao envelhecer, as pessoas perdem o desejo, a capacidade de sentir prazer ou o direito de viver relacionamentos afetivos. No entanto, estudos mostram que muitos idosos continuam sexualmente ativos, e que o interesse pelo toque, pelo afeto e pela intimidade pode se manter presente durante toda a vida. O problema é que, sem espaço para conversar abertamente sobre isso, muitas pessoas vivem esse momento em silêncio ou sofrimento.

O cuidado com a saúde íntima vai além da sexualidade. Inclui práticas de higiene adequadas, escolha de roupas íntimas que permitam ventilação da região genital, hidratação da pele, tratamento de alterações hormonais quando necessário, acompanhamento ginecológico e urológico, e orientações sobre prevenção de ISTs. A atenção básica de saúde deve incorporar essas demandas no acolhimento aos idosos, promovendo escuta qualificada, abordagens educativas e estratégias de prevenção.

A inclusão do tema em campanhas públicas e ações comunitárias também é essencial. Raras são as iniciativas que tratam a sexualidade e o cuidado íntimo com naturalidade entre pessoas idosas. A maioria das campanhas de saúde sexual ainda é voltada a adolescentes e adultos jovens, deixando de fora uma parcela significativa da população que também necessita de informação, acolhimento e acesso a cuidados especializados.

Além da dimensão biológica, o cuidado com a saúde íntima está profundamente ligado à saúde mental e emocional. Problemas não tratados podem levar ao isolamento, à baixa autoestima, à depressão e até à recusa de vínculos afetivos. Quando há diálogo, acolhimento e suporte, os idosos sentem-se mais seguros para expressar seus desconfortos e buscar tratamento adequado.

É fundamental, portanto, quebrar os tabus que cercam o tema. A saúde íntima dos idosos precisa ser vista com a mesma seriedade e naturalidade que qualquer outro aspecto da saúde. Falar sobre isso é garantir que cada pessoa, independentemente da idade, tenha o direito de viver com dignidade, prazer e autonomia.

Promover o cuidado com a saúde íntima na terceira idade não é apenas uma questão de saúde pública, é um gesto de respeito com quem construiu sua história, e que tem o direito de continuar vivendo com bem-estar em todas as dimensões da vida.

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