Sindicato do Comércio Atacadista no Estado de Goiás

Terceirizar nem sempre é a melhor solução, afirma empresa

Na empresa, há 4 das 6 ocupações que costumam ser terceirizadas e foram objeto de estudo publicado pela USP, que pesquisou diferenças nos salários dos trabalhadores.

Em duas delas, a empresa contrata uma prestadora de serviços: vigilância e limpeza. Em outras duas —TI e telemarketing—, emprega diretamente os funcionários.

TERCEIRIZAÇÃO

Na área de tecnologia, Santos, que coordena cerca de 30 pessoas contratadas diretamente, diz que adota a terceirização em projetos que precisam de reforço por curto período de tempo.

Há um ano e três meses na empresa, usou a opção apenas uma vez, por quatro meses, para acelerar o desenvolvimento de um produto.

Nas cidades brasileiras, a cada 100 trabalhadores, 6 são terceirizados, segundo a Pnad (pesquisa por amostragem feita pelo IBGE) de 2015. A pesquisa levantou a porcentagem de trabalhadores com contrato intermediado por empresa.

O alcance é limitado mesmo entre as seis funções terceirizáveis estudadas pelos pesquisadores da Fipe, FEA e FEE, como segurança, limpeza, telemarketing ou TI.

Na média, 75% dos empregados dessas áreas eram contratados diretos da empresa em que trabalhavam.

A porcentagem varia bastante entre as ocupações: de 5,4% de terceirizados no setor de montagem e manutenção de equipamentos a 62% no de telemarketing.

CUSTO TRABALHISTA

A insegurança jurídica é uma das hipóteses para o baixo índice de terceirização.

Até o primeiro semestre deste ano, a Justiça do Trabalho considerava essa forma de contrato possível apenas em funções meio.

Decisões judiciais também vinham estabelecendo o vínculo do empregado com a empresa que contratou a prestadora de serviço, o que resultava em dívidas trabalhistas.

Outro motivo para a baixa porcentagem é que no Brasil mais de 80% das vagas se concentram em empresas com até quatro funcionários, sem estrutura para contratar mão de obra terceirizada.

caso a caso

O economista Eduardo Zylberstajn, co-autor do estudo publicado pela USP, avalia como simplista o argumento de que as empresas optam pela terceirização apenas para pagar menos.

“A decisão é mais complexa. Num fabricante de chips, por exemplo, a limpeza da linha de montagem é crucial e exige trabalhadores especializados; a faxina do refeitório, por outro lado, pode ser terceirizada.”

SEGURANÇA 24H/DIA

O recurso costuma estar ligado ao ganho de escala. Uma empresa que precisa de seguranças 24h/dia terá problemas se contratar três vigias para a manhã, a tarde e a noite quando houver faltas, férias, licenças etc. Contratar os serviços de uma prestadora resolve esse problema.

Outro motivo é que a empresa de segurança tem know-how na seleção e gestão dos vigilantes.

Mas quando a função é fundamental para o faturamento, a tendência é preferir o contrato direto.
É o caso da Minuto. Além de tecnologia, o atendimento por telefone é função crucial para o resultado do negócio. Por isso, nenhuma das cerca de 500 vagas é terceirizada.

Formado em ciência da computação, o próprio Santos já trabalhou para uma terceirizada, como PJ. “Foi uma forma de manter minha remuneração mais alta.”

Segundo ele, não é interesse das fornecedoras de mão de obra ter empregados menos qualificados ou mal remunerados. “Se os funcionários forem bons, a terceirizada consegue deixá-los alocados por mais tempo.”

Os desenvolvedores próprios, porém, são mais qualificados e comprometidos que os terceirizados, diz o diretor de TI.

Em parte isso ocorre porque, quando uma empresa encontra um bom funcionário, contrata, deixando para as terceirizadas os menos qualificados, segundo ele.

O estudo publicado pela USP mostra que, na média, terceirizados são mais jovens (36 anos, na média, contra 39), estão há menos tempo no emprego (média de 35 meses contra 71) e pedem mais demissão (1,2% contra 0,56%).
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MESMA EMPRESA, 2 CONTRATOS

MIRIAM BORGES DE AMORIM, 50

Servente, ocupou várias funções sem carteira assinada antes de ser contratada por uma fornecedora de mão de obra, há oito anos. “Fui ajudante de cozinha, cozinheira, diarista e bordadeira.”
Diz estar mais satisfeita agora, pela segurança do registro. Em duas terceirizadas, já prestou serviços em quatro empresas diferentes e diz não ver diferença entre ser contratada direto ou terceirizada.
“Só faria diferença se o salário fosse muito maior.”

ANA SOUZA LUZ, 46

Encarregada de limpeza, trabalha há dez anos na Brasanitas, que fornece mão de obra. Coordena uma equipe de sete pessoas.
Diz que uma das poucas diferenças entre ser contratada direta ou terceirizada é é ter um supervisor: “Qualquer coisa de que eu precise, converso com ele. É bom ter uma orientação.”

GLAUCO MACEDO, 39

Informado de que estudo mostrava salários maiores para vigias terceirizados, o segurança foi cético. Hoje terceirizado pela Pollus, diz ter certeza de que seu salário cresceria muito se fosse contratado diretamente. “Ganho R$ 4.000 brutos. Um colega que foi registrado por um condomínio de luxo por R$ 8.000″.
Segurança desde 2005, Macedo já passou por quatro empresas do setor e diz que a terceirização beneficia mais a empresa que a contrata. “O serviço vai ser fornecido 24 horas por dia. O problema dele está resolvido.”

Já para o funcionário, a situação não é tão boa, diz ele. “Se você não tiver um posto, a empresa te joga de um lugar para outro, você tem que dobrar horário, cobrir os outros. Tem que trabalhar em locais sem estrutura, sem banheiro, sem nada.”

GERALDINA PON, 50

Durante 20 anos, a hoje gerente de projetos trabalhou diretamente para diferentes empresas. Desiludida com as funções de chefia, resolveu dar uma guinada em sua vida profissional.
Tirou um ano sabático e, na volta, começou a trabalhar como pessoa jurídica para consultorias, que terceirizavam seus serviços.
Num desses projetos, acabou recebendo uma proposta de emprego. A consultoria abriu mão da cláusula de contrato que a impedia de ser contratada diretamente pelo cliente. “Para as terceirizadoras, é um prejuízo grande. Eles investiram na seleção e qualificação.”
Ela diz que a terceirização já foi totalmente absorvida pelo setor de TI, há pouca diferença entre as formas de contrato e os profissionais já sabe como negociar sua receita e os benefícios. “Alguns até preferem as consultorias, pela flexibilidade.”

SABRINA NASCIMENTO, 26

Ao lado de outros 250 consultores, Sabrina tira por telefone dúvidas de clientes do Brasil todo. Embora em telemarketing a maioria dos funcionários sejam terceirizados, ela sempre foi contratada diretamente pelas empresas nas quais prestou serviço.
“O atendimento é considerado o trunfo da empresa, e a terceirização dificulta o controle da qualidade”, opina.
Mesmo sem a experiência em uma prestadora de serviço, ela considera que, para o funcionário, o contrato direto e vantajoso: “Você se sente mais estável e o ganho é maior, já que não há um intermediário lucrando”.

Fonte: Folha de São Paulo